Em cada bago de arroz há uma lágrima.
E sendo a lágrima a mais poética
E lírica das secreções – em princípio, e sem indecências,
Em cada bago de arroz há uma rima em branco
E no prato, uma sentença.
Não há no arroz servido nenhuma indiferença
Ao franco sentimento de quem o come.
Que quem come arroz nota perfeitamente,
Em cada bago, como é concreta
A secreta dor da lama onde nasceu –
O arroz, e eu – nós todos, já agora.
Em cada bago de arroz há uma lágrima
Arrancada à casca escura e dura
Dos olhos que se recusam a chorar.
Mas é evitado.
Em cada bago de arroz,
Podes escrevê-lo
– Ainda que nem tenha por grande hábito comê-lo –
Em cada bago de arroz há uma lágrima.
Nascida e proibida de germinar.
É por isso que
Em cada bago de arroz há uma lágrima
Por chorar.
Mas em cada lágrima que me serves,
Perfumando as horas em que as choras
Com as marcas escuras que se desenham
Em arabescos de tristeza
Na tua face, há sementes
E flores escondidas no seu secreto embrião.
Em cada bago de lágrima
Descascado da casca onde te encerrei,
Eu sei,
Há uma semente
– A única semente –
Capaz de criar raízes no meu corpo
Com a violenta ternura da tua voz.
Porque entre nós,
Podes escrevê-lo
– Ainda que nem tenha tido por grande hábito comê-lo, –
Estará sempre pendente o beijo
Que falta dar.
sábado, 28 de março de 2015
Oryza sativa
Nerium oleandrum
Vi almas penadas a voar
e lanças espetadas nas estrelas
Em grupos de três, a sangrar...
Vi pétalas de lividez
Em grupos de cinco, a gangrenar...
Vi nos sonhos de quem morre
Aquilo que a vida enterra.
Vi as hastes vegetais irrompendo da terra parindo
Aloendros brancos
Símbolos eróticos da seiva
Da noite
E da morte.
Ouvi o sussuro da calmaria
E os passos de quem colheu o silêncio branco
Das flores que oferecem o doce odor do sono eterno.
Ouvi o sussurro da calmaria
E na vida que irrompe da terra parindo
Cheirei
Os alandros brancos
Brancos loendros
Aloendros brancos
Oleandros
Em grupos de três
Almas penadas a voar
Colhidas e escondidas na cabeceira de quem não quer acordar.
sexta-feira, 27 de março de 2015
Fauno e menina
Trago a embriagez de frutos por fermentar,
E a suave doçura do mel nos meus braços.
Trago a luz do sol nos meus cabelos baços.
E muito mais do que queres desejar.
Não sei que desejo é este, de me dar,
E me oferecer em cada bago que trago,
pronto a fecundar os teus lábios com graínhas,
Quando temes cada um dos meus passos
E foges, com asco, dos meus abraços,
Correndo por florestas queimadas,
descansando em margens desviadas,
E dormindo sem saudades minhas.
Senhora do Ó
Saberia Maria, escrava do desejo divino,
O que significava o Ó?
E Job? Saberia, no seu exaltado hino
Ao perfeito círculo do mundo,
Que a auréola de um sacro destino
Pousava num corpo, imundo
De redondas chagas?
Saberia Maria, que no olhar profundo
Do filho que escapara às adagas
Cravadas nos inocentes,
Se reflectiam as fragas
Das tentações ingentes
Que assaltam quem tudo tem?
Saberia Ana como seriam diferentes
Os ós que semearia Além,
Daqueles que semeou cá?
Saberia Maria o valor do A?
Suicídio nas águas
Nas águas onde Ofélia flutua
E Virgínia desce,
Anju avança, a caminho da plácida anulação da dor.
Onde as flores se despedaçam lentamente
Em pétalas manchadas de limo verde,
Ofélia flutua e Virgínia desce.
Anju avança entre as ervas altas coroadas de neve e algodão.
Onde um barco vacila,
Encalhado nos cabelos das fadas,
Que todos os dias morrem
Pela descrença,
Dois amantes baloiçam sobre o espelho baço do nevoeiro
E descobrem no abraço da morte
Que o rio apenas dissolve as mágoas
Nas lágrimas da própria Terra
.
Ofélia flutua
Como mais uma flor arrancada à terra
E sem outras raízes que não o ventre esquecido de sua mãe.
Virgínia desce
E ancora no lodo das vozes.
Anju avança
Ofélia flutua
Virgínia desce
No ventre esquecido das mães que nunca foram.
Abraão olhando as estrelas
São incontáveis como as estrelas,
As estradas e as pedras,
As alheiras
E as fogueiras.
Incontáveis as gerações
Que viram Um
Na promessa de muitos...
Avaros das suas recordações
Incontáveis
Registadas
No ter e haver
Do destino comum
Da senda dos exércitos e nações.
Porque são incontáveis os caminhos,
Os quadrantes e pergaminhos
Onde os compassos riscaram,
Na cabala das costas
E Oceanos,
A única rota que resta
Para dar paz aos nossos anos.
As estradas e as pedras,
As alheiras
E as fogueiras.
Incontáveis as gerações
Que viram Um
Na promessa de muitos...
Avaros das suas recordações
Incontáveis
Registadas
No ter e haver
Do destino comum
Da senda dos exércitos e nações.
Porque são incontáveis os caminhos,
Os quadrantes e pergaminhos
Onde os compassos riscaram,
Na cabala das costas
E Oceanos,
A única rota que resta
Para dar paz aos nossos anos.
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