sexta-feira, 27 de março de 2015

Parar a morte



Porque não pude parar a Morte
Ela, gentilmente, parou para mim.

(Emily Dickinson)
  
A leve e alegre carruagem da morte
Dá pinotes ao meio dia...
Nem um negrume, nem triste sorte:
Apenas sol e calmaria.

A leve e alegre carruagem da sepultura
vem forrada de cetins
e ornada de querubins
dourados em moldura...

Pouco interessa o desdém,
Também,
De quem a vê passar.
A alegre carruagem
Da derradeira viagem,
Agora mesmo, está a parar.

Allegretto

Irrompeu do caos
O silêncio
E fez-se a maresia, o instante
E a solidão.
Irrompeu da espuma a tristeza,
A lágrima, a nuvem e a primeira imagem da nudez.
Irrompeu do caos
O silêncio: a primeira imagem da surdez desejada.
Irrompeu do caos e da lama
O silêncio purificante de uma chama, e o desejo
Da brutal carícia das coisas impossíveis,
Sobre a laje fria dos banquetes irreversíveis dos abutres.

Foi na secura resignada dos meus olhos
Que as lágrimas se espelharam,
Derramando-se no cântico lago do mundo.

Ao inclinar a cabeça servil
Soltaram-se, em gemidos, os cabelos da escravatura.
E abriu-se o caminho da tua viral doçura
Dos abismos sob as estradas e caminhos
Dos nossos infantis amplexos.
E irrompeu do silêncio a oração, então esquecida,
Dos abraços reflexos.

Descerrou-se o mármore.

E acolheu-se o silêncio nas palavras
Nuvem, água e maresia.

Descerrou-se o mármore
E entrou em trabalho de parto a poesia.

Tese - antítese e síntese (vai dar tudo ao mesmo)

Nos olhos do desgosto
os anjos
Deus
Os Deuses
O Diabo a sete.
Nos braços da claridade
a música gravada em pedra
a um tacto mudo.

Não sei o que há na música e na poesia. 
Não sei para que serve. Abomino a sua serventia,
a mensagem, o disse que não disse, a ambiguidade.
Abomino a antiguidade.
Em vez de gritos, mais vale morrer calado.
Para quê tentar Deus com orações
quando é o silêncio que sobe em agrado a um nariz infecto?
São apressadas conclusões, não?
Silogismos de pé cortado. Seja.
Queimemos Santo Agostinho na sua piedade arrependida e pornográfica
para que veja
que a Igreja
Maniqueísta que recusou
é a única válida na Arte
pela parte de quem a usou.

18 de julho de 2004

Sagração da Primavera

Com que palavras queres que t' o diga?
Melhor o dizem as árvores em flor
Ao circular segundos de calor
Na seiva que o meu coração abriga.

Vê que sou uma Primavera em dor
Ciosa do gérmen de cada espiga
Que o cio das cigarras em cantiga
Converte nos ecos do meu amor.

Sente nos amentilhos de algodão
Os primeiros calores de Verão
Desejando o teu corpo de mulher.

Sente no meu silêncio uma canção:
Meus dedos desfiando em oração
As pétalas brancas de um malmequer...

Carícia

Como um silêncio que voa
Sobre o azul cinzento
Das nossas manhãs
De rosas em coroa,
Num adagietto lento,
As carícias das nossas mãos
Não se exprime num olhar.
Ainda que nos nossos olhos
Repouse, apenas,
Puro,
O cintilar das esferas
De um acto simples,
E puro, de amar.

quinta-feira, 26 de março de 2015

i

John Allen, jornalista do Boston Globe conta que, tendo encontrado num restaurante de Roma um cardeal sobejamente conhecido pela opulência do seu estilo de vestir, trajado com uma trapinhos mais singelos, lhe perguntou a razão da mudança. A resposta foi cínica mas, curiosamente , é facilmente entendida como um sinal de mudança nos hábitos da Igreja. Talvez por ingenuidade. Talvez por cegueira. Talvez porque quem perdoa este género de humor não é, provavelmente, melhor que este cardeal que, com um crucifixo de ouro talvez menor, manterá, também com certeza, exemplares mais pesados nas gavetas que terá de carregar no Inferno, de acordo com a doutrina em que supostamente acredita. Respondeu que com este papa, o simples era o novo chique. Chique. O diabo veste Prada, dizem. Mas também se veste de luz. São as escrituras que o dizem.