quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

O meu último poema

Deixei de escrever poesia.

A árvore que dá cachaça

Considera-me água corrente.

E ninguém sente a falta dela.

Paz à sua alma.

sábado, 22 de agosto de 2015

Marce, de Gláucia Lemos


Em Marce,  a escritora baiana Gláucia Lemos, atraída pelos sons e pelo ritmo selvagem e encantatório da natureza diabólica do ser humano, tem a coragem de se adentrar pelo corredor escuro do egoísmo humano. Mas, tal como a personagem que dá nome ao romance, prefere deixar algumas portas fechadas. Em termos formais, o enredo não dispensa algumas revelações com sabor a literatura de cordel do século XIX ou às comédias de Beaumarchais e, tal como nestas, a rede humana de coincidências e laços de sangue insuspeitos são reveladores de uma ordem social de aparências que se vai esboroando perante novos caminhos de liberdade.

É um romance onde a um sentimento prevalecente de libertação feminista se contrapõem momentos de medo, omissão e cobardia. Uma cobardia supersticiosa já entrevista num espelho que serve de subtítulo ao livro. A cobardia de quem vê alguém morrer devido ao nervosismo negligente da autoridade e aceita placidamente a injustiça com um mero amuo de despeito, a cobardia de quem suspeita de um crime pavoroso e prefere fingir que tudo está bem. Uma cobardia que varre para debaixo do tapete tudo o que é inconfortável e remete Marce, esta personagem central de um bildungsroman no feminino, para um desconcertante estatuto de ambiguidade. Exilada no limbo de uma praia remota, tanto paraíso quanto inferno. Ou, como se diz a certa altura, num paraíso a que se acede por meio dos caminhos do inferno - quando, bem diz a doutrina, quem entra no inferno não pode acalentar a esperança de lá sair. E Marce não sai do inferno começado nos seus amores falhados. A verdade deste romance - que cada romance só vale pelas verdades que encerra nas suas estudadas mentiras poéticas - está exatamente no caráter ambíguo de uma personagem que não é um modelo de virtudes. Primeiro ingénua, à conta da paixão dedicada a um torpe espécime de macho, Marce evolui ao longo da narrativa, torna-se mulher liberada - expressão utilizada desdenhosamente por outra personagem não menos liberada no que diz respeito a costumes e à expressão tendencialmente  plena da sua sexualidade. Tendencialmente porque a alegoria é clara: só através da perda se podem atingir patamares mais elevados de maturidade. Quando, na narrativa começada in media res, Marce se volta a olhar no espelho chinês dos maus presságios, devidamente ornamentado com um ouroborus, símbolo da autofecundação e da solidão enquanto elemento definidor do eu, o que Marce encontra é aquilo que falta, aquilo que se perdeu. Aquilo que, perdendo-se, a completa enquanto mulher. Marce, personagem central de um bildungsroman, como já disse, não evolui ou se educa através do confronto com teorias e sábios gurus, mas através da perda. À medida que o seu mundo vai estreitando, paradoxalmente, maior é a linha de costa que os seus pés descalços percorrem em direção ao desvelar dos medos e das superstições, abrindo-se-lhe as portas dos simples que a acolhem num meio onde a consciência do mundo ainda se encontra em estado de fábula, numa névoa onírica que parece sair de outro livro de Gláucia, Luaral.

Mas se Marce é, ao nível estrutural, o centro nevrálgico desta história, a família de onde foi desterrada é a personagem moral. Uma família que é, acima de tudo, uma instituição social que, ainda dando os primeiros passos no que diz respeito à aceitação das liberdades individuais, está ainda minada pelo pensamento puramente egoísta e enformado na luta pelo poder. O amor é apenas um capricho ao qual se cede, dada a força inexorável da pele contra pele e a sua transmissão de um subtil veneno onde não há lugar para paixões amenas ("A química da pele é uma porta escancarada para esse vírus miserável que une as criaturas."). Cada ato de amor, para cada elemento daquela família que se desmorona é, também, um ato de conversão. Uma mudança de fé.

Em resumo, um livro que, de acordo com a receita de Stendhal, é um espelho ao longo de um sinuoso caminho. Um espelho que tanto reflecte como se nega a tudo abarcar. Porque somos assim. Incompletos e limitados pelas molduras e pelos agouros e presságios, bons ou maus, com que enquadramos o nosso olhar.


sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Luís Vargas I

Um tal de Luís Vargas, obviamente do PS, ou que, sendo de esquerda é burro o suficiente para só bater em metade da coligação que governa o país, tem, porém, a inteligência de dizer coisas que são óbvias. Talvez não seja inteligência. Talvez seja apenas esperteza e vontade meritocrática de substituir o coiso dos corações... O.… Edson Ataíde. Pois.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Acróstico

Finalmente olhaste para mim,
Olhos nos olhos,
De sorriso rasgado.
E
Ignorando
Vénias,
Ouviste-me,
Simplesmente.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

INE

Os números sobre as pessoas:

Idade, residência, camas e violência,

Vão sendo lançados.

E os cidadãos, apesar da logística,

Com bons resultados em estatística,

Entalados em desemprego, inflação, dívida,

E uma alta taxa de alfabetização

E baixa literacia,

Encavalitando-se nos números,

Fazem democracia.

Lançam fundamentadas opiniões.

Os números não mentem.

- Ai que não mentem!

- Não mentem, não!

As palavras sim. Especialmente

As que vêm encavalitadas em números,

Embrulhadas em papel de opinião.

Depois, há a Razão.

E essa só interessa a quem dos números

Da mortalidade, subnutrição, obesidade

E falta de educação,

Não faz outro escrutínio

Ao consumo de alumínio, cimento e alcatrão,

Que não o que não se deduz

De um incalculável cagalhão.

domingo, 3 de maio de 2015

É por isso que tenho medo

Corre pela Internet, a seguinte citação, ora atribuída à pena de Shakespeare, ora aos charros do Bob Marley. Ora, nem a um nem a outro pertencem estas linhas muito prosaicas e de pouca elegância poética, embora com um fundo aforístico que faz pensar em poesia asiática. O texto, em português do Brasil, tem esta versão:


Você diz que ama a chuva,
Mas você abre seu guarda-chuva quando chove.
Você diz que ama o sol,
Mas você procura um ponto de sombra quando o sol brilha.
Você diz que ama o vento,
Mas você fecha as janelas quando o vento sopra.
É por isso que eu tenho medo.
Você também diz que me ama.


Em português de Portugal reza:

Tu dizes que amas a chuva,
Mas abres o guarda-chuva quando chove.
Tu dizes que amas o Sol,
Mas procuras uma sombra quando ele brilha.
Tu dizes que amas o vento,
Mas fechas as janelas quando ele sopra.
É por isso que estou preocupado,
Tu disseste que me AMAS.


O texto em Inglês:

“You say you love rain, 
But you use an umbrella to walk under it. 
You say you love sun, 
But you seek shelter when it is shining. 
You say you love wind, 
But when it comes you close your windows. 
So that's why I'm scared 
When you say you love me.”


Em francês, também corre uma outra versão:

"Tu dis que tu aimes la pluie,
Mais tu ouvres ton parapluie quand il pleut. 
Tu dis que tu aimes le soleil,
Mais tu cherches l'ombre quand il brille. 
Tu dis que tu aimes le vent,
Mais tu fermes ta fenêtre quand il souffle. 
C'est pourquoi j'ai peur
Lorsque tu dis que tu m'aimes."

E em castelhano:

Dices que amas la lluvia,
Pero abres tu paraguas cuando llueve
Dices que amas el sol,
Pero buscas una esquina con sombra cuando el sol brilla
Dices que amas el viento,
Pero cierras tu ventana cuando la brisa sopla.
Por eso temo
Cuando me dices que también me amas"


Para ajudar à confusão, há três (ou quatro, ou, quem, sabe, mais...) textos semelhantes, atribuídos a Jean Cocteau, a Sacha Guitry e a Jacques Prévert:

Tu dis que tu aimes le poisson,
Et tu leurs coupes la tête. 
Tu dis que tu aimes les fleurs,
Et tu leurs coupes la queue. 
Tu dis que tu m'aimes...
Ça m'inquiéte!


Dizes que amas os peixes,
Mas cortas-lhes a cabeça.
Dizes que amas as flores,
Mas corta-las pelo caule.
Dizes que me amas...
Isso inquieta-me.
(atribuído a Guitry)

Tu dis que tu aimes les fleurs,
Tu les coupes.
Tu dis que tu aimes les poissons,
Tu les manges.
Tu dis que tu aimes les oiseaux,
Tu les mets en cage.
Quand tu me dis "Je t'aime",
J'ai peur...

Dizes que amas as flores,
Mas corta-las.
Dizes que amas os peixes,
Mas come-los.
Dizes que amas os pássaros,
E fecha-los em gaiolas.
Quando dizes "Eu amo-te",
Tenho medo...
 (atribuído a Prévert)

Outro ainda, atribuído a Prévert:

Tu dis que tu aimes les fleurs
Et tu leur coupes la queue
Tu dis que tu aimes le vent
Et tu fermes la fênetre
Tu dis que tu aimes les escargots
Et tu les plonges dans l’eau bouillante
Quand tu dis que tu m’aimes
Ma chérie, j’ai peur.


Dizes que amas as flores
E cortas-lhes o caule
Dizes que amas o vento
E fechas a janela
Dizes que amas os caracóis
E mergulha-los em água a ferver
Quando, dizes, que me amas,
Minha querida, tenho medo.

Finalmente:

Tu dis que tu aimes les fleurs
Et tu leur coupes la queue,
Tu dis que tu aimes les chiens
Et tu leurmets une laisse,
Tu dis que tu aimes les oiseaux
Et tu les mets en cage,
Tu dis que tu m'aimes
Alors moi j'ai peur.


Dizes que amas as flores
E cortas-lhes o caule,
Dizes que amas  os cães
E prende-los a uma trela.
Dizes que amas os pássaros
E fecha-los em gaiolas,
Dizes que me amas,
Por isso tenho medo.
(atribuído a Cocteau)

A ideia de que é uma citação de Bob Marley tem origem numa canção cantada sabe-se lá por quem, mas que se decidiu atribuir a Bob Marley. Note-se, de facto, que o conceito subjacente ao texto não condiz em nada com a filosofia de Marley, incapaz de ver medo ou sinais de traição em manifestações amorosas. Há, contudo quem refira que, algures num filme não identificado e na "intro" também não identificada de uma não identificada canção, Marley diz estas tão desconcertantes palavras, sendo ele quem era.

Ora, há sempre alguém que se dê ao trabalho de fazer arqueologia internética Nos comentários deste post, entre algumas melgas que repetem que é Bob Marley, desenrola-se um diálogo interessante que parece reportar a origem do texto à Turquia. O texto parece seguir as linhas mestras da poesia folclórica turca e, pelo que aprece, é da autoria de um elusivo poeta turco que daria pelo nome de Qyazzirah Syeikh Ariffin. Sem certezas, contudo. Pouco há sobre este autor. Nem uma linha biográfica. Nada. Talvez a ele volte mais tarde.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Da ininsistência


Para o cristianíssimo apóstolo, bem amado das mais pagãs e sedutoras divindades,
Paulo Brabo



O tempo, que não existe, tudo destrói.
Tudo corrói
Tudo.
O tempo tudo anula,
Tudo engole,
Tudo apaga,
Tudo arrasa
Tudo.
Caem os Impérios, revelam-se os mistérios,
Povoam-se ermitérios e nascem vivas,
ressurretas,
as almas mudas, esquecidas, dos cemitérios.
O nada explode,
O tudo encolhe,
O algo foge.
O burro aprende.
O inevitável suspende o seu olhar
E retrocede.
O maior inimigo, rendido, cede.
O Tempo tudo constrói
sobre os membros mortos das suas vítimas.

O Tempo, que não existe, insiste em ser,
e, não existindo, nele tudo insiste em converter.